A filosofia sempre esteve em devir, nunca foi estacionária, move-se na inquietude perpétua. Através da história humana, a filosofia escorre, fluindo com a História, e o futuro nunca esteve longe de suas atenções: mencionemos apenas, de passagem, os “espíritos livres” ainda por nascer que Nietzsche anuncia ou a filosofia do futuro que Ludwig Feuerbach tenta produzir.
Não se trata apenas de afirmar que filósofos sempre se interessaram pelo futuro, que às vezes se fizeram de profetas, lançaram prognósticos ou tentaram realizar predições sobre o porvir. Aqui afirmamos que a filosofia, que tem um passado de mais de 25 séculos atrás de si, seguirá escorrendo futuro adentro. O que ela virá-a-ser na sequência de sua travessia?
São tais mistérios aparentemente inescrutáveis que queremos sondar aqui, avançando hipóteses que a muitos tradicionalistas soarão descabidas. Sobretudo sobre a importância suprema de um diálogo com a produção cultural sci-fi para que o pensamento filosófico possa expandir seus horizontes atuais e assumir suas mutações.
No Brasil da atualidade, com o empoderamento de uma extrema-direita que leva às raias da insânia as práticas necropolíticas (como as chamou o filósofo camaronês Achille Mbembe), a filosofia pode até parecer desimportante. Mas será que não estamos no fundo do poço justamente por sermos uma sociedade que não se importa com a filosofia e deixa assim mal-cuidado todo o domínio do Bem-Viver enquanto discussão e prática coletivas em prol do aprimoramento da arte de viver?
Em um contexto em que se aceleram os processos de destruição pelo fogo e pela negligência de biomas fundamentais para o futuro humano (como são a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal), a filosofia vê-se diante da necessidade inadiável de levar a sério o que dizem os artistas e pensadores que costumam ser excluídos do âmbito de consideração dos filósofos acadêmicos e profissionais: o sci-fi merece atenção e reflexão.
Assim como nada justifica que um filósofo brasileiro atual ignore e negligencie as contribuições de pensadores indígenas como Davi Kopenawa e Ailton Krenak. Eles estiveram profundamente envolvidos na discussão sobre os futuros possíveis para a Humanidade, seja através da denúncia da xawara (fumaça de epidemia) e as hecatombes causados pelo “povo da mercadoria” (em A Queda do Céu), seja as provocativas reflexões Krenakianas sobre “como adiar o fim do mundo” e sobre um “amanhã que não está à venda”.
Há toda uma produção filosófica contemporânea que está atenta às mutações que estão incidindo sobre nossos corpos e subjetividades por efeito das novas tecnologias. Se considerarmos as intervenções técnicas sobre corações e mentes em sentido amplo, podemos conceber interessantes pontes de contato entre áreas aparentemente díspares: evocamos aqui a abertura de um horizonte, que queremos explorar mais a fundo, de interlocução possível entre a Teoria Queer, que tem em Paul Beatriz Preciado um de seus mais importantes pensadores, e o tema aqui explorado: o do futuro da filosofia.
Para além da filosofia pensando sobre o futuro, importa-nos saber que filosofia será forjada num futuro que se apresenta, cada vez mais, sob a sombra do ecocídio e da metabolical rift que Marx já alertara como sintoma do capitalismo: este cinde a unidade Homem-Natureza e instaura uma fratura por onde irrompem ecocídios e tiranias-de-classe totalitárias…
Preciado escreve, em Um Apartamento em Urano, que equivocam-se aqueles que pensam na mutação como algo restrito àqueles dissidentes de gênero que buscam remodelar radicalmente seus corpos e identidades: nascida mulher cis, transicionando para o status de homem trans, mas no processo recusando todos os rótulos binários do sistema sexo-gênero hegemônico, Preciado afirma que “todos estamos mergulhados numa transição planetária”:
“A ciência, a tecnologia e o mercado estão redesenhando os limites daquilo que é e será um corpo humano vivo. Hoje, esses limites não se definem apenas em relação à animalidade e àquelas que têm sido até agora consideradas como formas infra-humanas da vida (os corpos não brancos, proletários, não masculinos, trans, deficientes, doentes, migrantes…), mas também em relação à máquina, à inteligência artificial, à automatização dos processos de produção e reprodução. Se a primeira Revolução Industrial caracterizou-se, com a invenção da máquina a vapor, por uma aceleração das formas de produção, a atual Revolução Industrial, marcada por engenharia genética, nanotecnologia, tecnologias da comunicação, farmacologia e inteligência artificial, afeta em cheio os processos de reprodução da vida.” (p. 39)
Leitora das obras literárias de Ursula K. Le Guin e Virginie Despentes (marcadas por elementos do cyberpunk mesclados com enredos ora sci-fi ora pulp fiction), Preciado escreve obras onde a ousadia de um filosofar livre se mescla com a poiésis propriamente literária, auto-biográfica, relatando sua travessia transformadora com a testosterona. Paul Beatriz revela-se como “um ateu do sistema sexo-gênero transformado em consumidor da indústria farmacopornográfica” (p. 29).
Apontando caminhos novos para a velha filosofia, aponta para uma sabedoria trans, uma sophia em aberta ruptura contra os dogmas do patriarcado e suas imposições de uma heterossexualidade, afirmada como compulsória (todo desvio sendo delinquência) e fanática por divisões binárias (homo/hetero, macho/fêmea). Estilhaçando estes velhos esquemas, Preciado afirma: “ser trans é desejar um processo de ‘crioulização’ interior: aceitar que só nos tornamos nós mesmos através da mudança, da mestiçagem, da mescla.” (p. 33)
A filosofia do futuro poderá se dar ao luxo de ignorar as mesclas entre o humano e suas máquinas, entre nosso cérebro e os microchips, entre nossa sensibilidade e os aparatos técnicos aos quais ela está cada vez mais conectada? Comentando sobre “a dependência na era da telecomunicação”, na esteira do fenômeno Candy Crush Saga (considerado pela federação dos psiquiatras dos EUA como “uma autêntica epidemia nacional”), Preciado pondera:
“Nossa terceira natureza artificial demanda uma consciência nova, ao mesmo tempo que suscita um novo conjunto de relações de dominação e submissão. Cada geração precisa inventar sua própria ética em relação às suas tecnologias de produção de subjetividade, e, caso não o faça, como advertia Hannah Arendt, corre o risco do totalitarismo – não por malícia, mas por simples estupidez. Assim como os sistemas teológico-políticos apoiaram suas formas de controle na prevalência do livro único, nossas sociedades digitais correm hoje o risco de deslizar para uma forma de totalitarismo do software único, uma espécie de ontoteologia digital. Os aplicativos disponíveis na Google Play ou na Apple Store são os novos operadores da subjetividade. Lembre-se então de que, quando você baixa um aplicativo, ele não está sendo instalado em seu computador ou em seu celular, mas em seu aparato cognitivo.” (p. 86)
O cinema sci-fi, através da obra perturbadora e inquietante de figuras como David Cronenberg, já realizou estarrecedores mergulhos audiovisuais em mundos que pararam de nos parecer tão distantes – Videodrome ou eXistenZ revelam um artista que se especializou no chamado “body horror” revelando, através de fantasias que nos soam cada vez mais verossímeis, a extensão das mesclas entre o humano e suas criações técnicas. As “bioportas” que permitem a conexão de PCs e de aparatos de realidade virtual diretamente na espinha dorsal e no sistema nervoso central do “viajante videodrômico” apontam para a vastidão da imaginação visionária de Cronenberg, décadas antes de Black Mirror.
A filosofia não pode seguir como se estivesse ainda na Era de Gutenberg quando tenta pensar sobre a Geração Netflix. Similarmente, não deve ignorar a emergência de conceitos que a obrigam a repensar suas próprias noções sobre a História: quão antiquado e ultrapassado seria um filósofo do século XXI d.C. que ignorasse a noção de Antropoceno? O que justificaria tal cegueira voluntária deste filósofo tradicionalista, que preferisse continuar cego à afirmação de geólogos, climatólogos, biólogos e outros cientistas e pesquisadores, que hoje avançam a tese de que “abandonamos o Holoceno para entrar no Antropoceno”?
“Pelo menos desde a Revolução Industrial, nossa subespécie, o Homo sapiens sapies, converteu-se na maior força de transformação do ecossistema terrestre. O Antropoceno não se define apenas pelo nosso protagonismo, mas também pela extensão à totalidade do planeta das tecnologias necropolíticas que nossa espécie inventou: as práticas capitalistas e coloniais, as culturas do carvão e do petróleo, a transformação do ecossistema em recurso explorável, que provocaram uma onda de extinção animal e vegetal e o progressivo aquecimento planetário. Para transformar nossa relação com o planeta Terra numa relação de soberania, de dominação e de morte foi preciso iniciar um processo de ruptura, de externalização, de desafeição. Erotizar nossa relação com o poder e deserotizar nossa relação com o planeta. Convencermo-nos de que estávamos fora, de que éramos outro.” (p. 116)
O filósofo do futuro poderá, como fazem certos filósofos do presente, estar alheio ao impacto do Prometeu desacorrentado da tecno-ciência digital? Poderá fazer pouco caso do fato de que digita seus textos em um PC, que é consumidor de produtos da Microsoft ou da Apple, que investiga a história do pensamento com auxílio do Google e da Wikipedia, que lê PDFs baixados da Baía Pirata ou da Library Genesis que lhe dão acesso a obras inacessíveis nas livrarias e bibliotecas de sua cidade, ou mesmo de seu país?
O polonês Stanislaw Lem (1921 – 2006), autor do clássico romance sci-fi Solaris (já adaptado ao cinema por Tarkovsky e, decádas depois, Soderbergh), é também um filósofo que merece atenção, sobretudo por sua teoria da evolução em que evita cindir o biológico e o técnico.
Em Nova Cosmogonia, Lem trabalha com um paralelismo entre a evolução biológica e a tecnológica: “A primeira diferença entre nossas duas evoluções é genética e refere-se à questão das forças causadoras. A ‘causadora’ da bioevolução é a Natureza, e a da evolução tecnológica, o homem.”(pg. 28)
Assim como outros filósofos que o precederam – penso sobretudo no Henri Bergson e seu L’Évolution Creatrice -, Lem afirmará que a Natureza, causadora da bioevolução, cria usando como um de seus métodos a destruição. Na verdade, a bioevolução “é um modo perdulário de invenção”: “ao longo de milhões de anos”, afirmam Lem, “o processo da bioevolução e suas práticas empíricas custaram hecatombes de vítimas – hecatombes enfrentadas sempre quando as condições de vida mudavam -, que se verificaram como ‘soluções falsas’ do problema da manutenção da vida.” (p. 38)
A bioevolução é dita “perdulária” pois desperdiça muito, destrói muito, joga um jogo de tentativa e erro que atravessa os milênios, um jogo aliás com mais perdedores do que vencedores, mais vítimas que sobreviventes. Muitas espécies chegaram a um beco-de-saída e foram extintas. Mudanças climáticas e ambientais extremas levaram vários organismos a perecerem para sempre, quase sem deixar vestígios para além de alguns fragmentos de ossos enterrados nas profundezas das rochas.
Para Lem, portanto, as criações tão impressionantes da bioevolução – como um olho de falcão, que uma lente de cinema fabricada pela tecnê humana tenta (em vão?) ultrapassar – merecem nosso ceticismo: esta “perfeição” do olho de falcão não veio de graça, nem exatamente por “acaso”, mas foi sim resultado de um imenso trabalho em que as forças da destruição agiram impiedosamente. Quantos olhos piores, olhos vesgos, olhos podres, foram extintos junto com as espécies que os portavam, através dos milênios do jogo criativo-destrutivo da Natureza?
“Não se deve superestimar a ‘sabedoria’ da evolução biológica, já que muitas vezes levou espécies inteiras a um beco sem saída, e repetiu não só soluções vantajosas como também erros perniciosos. A sabedoria da evolução é empírica e imediata, e sua aparente perfeição ela deve à imensidão dos abismos de tempo e espaço que atravessou, em que, no entanto, encontraríamos mais derrotas do que sucessos caso tentássemos fazer um balanço.” (LEM, p. 40)
Na comparação com a bioevolução, a tecnoevolução aparece a Lem como estando, no tempo presente em que escreve, em estágio de aceleração. Ou seja, muito capital estava sendo investido na aceleração de processos tecnológicos avançados – “os norte-americanos resolveram investir U$20.000.000.000 (20 bilhões de dólares) no pouso dos seus primeiros homens na Lua, em 1969. Se eles estivessem dispostos a adiar esse prazo por 20 anos, a realização do Programa Apollo iria certamente custa bem menos, porque a tecnologia primitiva consome, por ser jovem, recursos desproporcionalmente maiores em relação aos que seriam necessários para a execução de projeto análogo quando ela atinge fase mais adulta…” (p. 46)
Especulando sobre o futuro a partir das tendências que enxergava em seu presente, Vilém Flusser viu com clareza que caminhávamos para um mundo onde os humanos estariam progressivamente debruçados sobre telas e agindo principalmente através da ponta de seus dedos tateando em busca dos contatos com teclas.
“As teclas estão em toda parte: interruptores iluminam o quarto com rapidez de relâmpago; caixas se abrem imediatamente ao apertarmos um botão; o motor do carro se põe a funcionar instantaneamente ao virarmos a chave; a câmera fotográfica toma fotografias logo que apertemos a sua tecla… Ao apertarmos um botão, montanhas explodem, e, ao apertar o botão vermelho, o presidente americano pode terminar com a vida humana na Terra… As pontas dos nossos dedos são feiticeiros que embaralham o universo.” (pg. 35-36)
Os dedos que apertam teclas, acionam botões ou giram chaves são capazes de destravar processos colossais – pequenas causas, grandes efeitos. Um pouco do assombro relacionado ao Botão do Apocalipse ressoa no Dr. Fantástico de Stanley Kubrick, onde a possibilidade da bomba atômica ser disparada por algum desvairado agente político irresponsável está no centro da sátira. Mas há teclas também de efeitos ínfimos, hoje há milhões de teclas sendo tocadas a cada segundo, mundo afora, e muitas delas são apenas conversa fiada, informação redundante, passatempo inócuo.
É preciso distinguir, pois, entre o piloto do Boeing 747 que aperta teclas durante o vôo, e que pode derrubar a aeronave e matar centenas de pessoas se não souber tocar nos aparatos corretos, e a ação de teclar de alguém que está entediado em sua viagem no metrô e passa o tempo com Candy Crush ou algum outro joguinho aparentemente inócuo (apesar de ser uma espécie de Cronos de bolso, devorador de segundos que poderiam estar sendo investidos em algo mais relevante). De todo modo, Flusser previu um mundo onde humanos aos bilhões gastariam horas de seus dias usando a ponta de seus dedos em contatos com superfícies eletrônicas (ainda q não tenha vivido para ver a disseminação dos devices com touch screen hoje tão banalizados).
Não se trata de condenar a contemporânea cacofonia de dedos batendo em teclas. Há teclas e teclas: um genial pianista diante das teclas brancas e pretas de seu piano, produzindo uma música que encanta todo o teatro, filmado pelas câmeras de cinema para que sua performance possa ser reproduzida depois em TVs e computadores, é certamente diferente de um pré-adolescente trocando chuvas de emoticons com seus coleguinhas de escola num imediatismo absolutamente inconsequente. Similarmente, Flusser evoca sua própria experiência enquanto escritor, no processo de datilografar seu texto numa máquina-de-escrever, afirmando sua sensação de liberdade diante da typewriter:
“Ao escrever o presente texto, tenho a sensação existencial indisfarçável de liberdade. (…) Me sinto livre embora o meu tatear sobre teclas me convide a determinismo aleatório, minha sensação existencial recusa tal determinismo. Com efeito, recusa-o tão violentamente que sou levado a afirmar que raras vezes me sinto tão livre do que quando aperto teclas. Prefiro morrer a estar privado das minhas teclas. Scribere necesse est, vivere non est. Ao apertar as teclas da minha máquina, toda a minha existência se concentra sobre as pontas dos meus dedos. Devo, ao inventor das teclas e ao produtor da máquina, esta minha liberdade. Graças a eles, toda a minha ‘interioridade’ flui rumo às teclas, para nelas se concentrar e depois fluir rumo ao espaço público, a fim de alterá-lo.” (p. 41)
Para Flusser, pressentindo o advento da sociedade informática e hiperconectada, no “futuro não muito distante nossa sociedade será composta por tateadores de teclas em busca de informação nova…. Dizer isto é a um tempo articular utopia e utopia negativa, porque tal forma insuspeita de liberdade pode perfeitamente virar dialeticamente escravidão tão total e totalitária que ninguém mais se ressentirá da falta de liberdade. Eis como estamos no mundo: tateamos, e nas pontas dos nossos dedos se condensa futuro simultaneamente aterrador e inebriante.” (p. 45)
Publicado em: 21/08/25
De autoria:
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia